Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

corte novo

new haircut new haircut 




Uma espécie de remake que é também emocional. O melhor de há quase dez anos atrás, mais os frutos que desde então se ofereceram. E menos 20 cm de cabelo.

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

a sabedoria ou um homem

"Procuro uma mulher, disse Bloom, ou então a sabedoria."
(Uma Viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares)


Encontro-me elevada à condição de uma força tão elusiva e desejada que inspira todo um livro bíblico, e no entanto a frase não me deixa dormir: na boca de uma mulher "a sabedoria ou um homem" dificilmente quereria dizer a mesma coisa. Literariamente o amor pode reservar a um homem o caminho da salvação; a nós, dá-nos a Madame Bovary, no máximo (há Connie Chatterley, mas curiosamente nunca atingiu o nível de ícone de Emma.).
Devia talvez tomá-lo como um elogio: assume-se aqui (como em Herberto Hélder, como em tantos outros) o sexo feminino como portador de uma sabedoria intrínseca e misteriosa, quase mágica, por vezes aterradora, que já vem de fábrica. Ficamos livres para que o amor possa ser só sangue e emoção, porque a nossa redenção vem garantida pelo carácter místico dos nossos cromossomas.

Não é um elogio, é uma sentença. Literariamente o amor de uma mulher oferece redenção porque não se escapa ao trágico. Será ignorância minha, que tenho tantos mais livros para ler do que lidos, mas as grandes mulheres das narrativas são as que ficam em casa a desfazer o véu pela noite enquanto a casa é devassada, as que salvam do labirinto e são depois abandonadas em ilhas, as que caem à loucura e ao suicídio, e até Atena não podia ser só deusa da estratégia militar, tiveram de atirar os lavores do lar para a mistura. Acontecerá talvez por causa dessa falácia instalada acerca da nossa sabedoria. Não a tenho; ou os homens que cantam as mulheres andam enganados, ou os meus cromossomas vieram com defeito. Também preciso de redenção e de embarcar, nem que seja para voltar viva, maltratada e cheia de saudades de Casa; também preciso de ir à guerra e de ter razões para acreditar que o meu mundo interior pode ter algo de universal, e fazer sentido para lá dos limites da minha cabeça - por muito bonitos, enternecedores e geradores de epopeias que esses limites sejam.

E porque não no Amor, porque não ser ele também um Porto de Abrigo de uma jornada interior, porque não poder dizer "a sabedoria ou um homem" e isso querer dizer uma busca que se faz em conjunto e não uma total passividade ou uma total perdição? Olho o espelho, olho a Prata na minha pele, e sei que há um bocado dessa sabedoria luminosa e terrível dentro de mim; sei que apesar de tudo há o amor como cantado pela boca de mulheres como Sophia; sei que a minha noção de mim nunca vem desligada de me sentir profundamente feminina; e sei que este peso da fragilidade e da tragédia pode ser uma interioridade que tento atribuir a todo o género e aos homens que nos cantam, para me sentir menos só, e para poder culpar outras cabeças que não a minha. Mas a sabedoria está lá tão, tão longe e eu preciso da minha epopeia interior. Porque não caminhar acompanhada, se há quem faça caminho comigo e se disponha a não deixar que ninguém (especialmente eu própria, que é o principal de tudo isto e que não se queria deixar dizer) me transforme em mera vontade de literatura ?

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

da ausência - II

Neste momento suspenso
em que o tempo passa tão devagar
e é difícil fazer com que os gestos tenham eco
tento aprender uma espera activa e atenta
que resista ao desespero fácil
perante os familiares que lentamente partem
e à música demasiado alta que no rés do chão
incomoda a minha pretensão de misticismo.
No fundo eu conheço tão bem
todos os Sinais e a necessidade de agir,
tenho comigo a força de raízes,
da casa velha dos meus avós
e do bem que as praias atlânticas me fazem.
Falta-me a força suave e inquebrável
dos que servem do coração
(e não por um imperativo exterior, todo a
reluzir de heroísmo e dever cumprido),
e que na vida ousam a procura coerente de um Eixo
e a necessidade de chegar a algum lado.







A felicidade tem um fundo de tristeza, quando faltam aqueles com quem mais gostaríamos de a partilhar, olha, agora está tudo bem, deixa-me oferecer-te isso (amar é também reconhecer que estarmos bem é algo que devemos a quem nos quer bem). 
Há dias assim, quer a ausência que nos pesa tenha dez anos ou um pouco menos de três meses.

da ausência - I

Encostei uma tangerina (cheiro da infância) ao coração para tentar absorver a beleza que se esconde em tudo, mas os meus olhos só encontraram a tristeza dos medronhos numa tarde carregada, e as mãos tremem-me perante a fragilidade de quem tanto amou e tanto deu.

Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

Alice (s)

"Este ano quero voltar a usar o meu corpo de Alice."


Descobri a frase, já com seis anos em cima, perdida nos meus arquivos. E apesar do tom de adolescentice (que gostava de dizer que já não se usa por estes lados, mas mentiria), não me parece uma má ideia para este ano. E para este blogue.

Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

leituras para um trabalho de Bioética

"A impossibilidade de traduzir imediatamente a relação de tratamento nos termos do "contrato" entre o especialista e o doente deriva da espessura existencial da doença, do seu significado ético e antropológico. (...) A doença existe apenas como abstracção; aquilo que concretamente existe é o doente e no processo de tratamento entram em jogo valores relacionais que não se esgotam na cura do órgão ou da disfunção. Sem querer sobrecarregar a figura do médico com exigências e competências que transcendem o seu profissionalismo, resto o facto de no tratamento do corpo humano se assumir o tratamento, quer se queira, quer não, de uma pessoa humana, de um ser humano."

Ellio Sgreccia, Manual de Bioética

Domingo, 4 de Dezembro de 2011

quarto vazio

Fez ontem um mês que morreu o meu tio Armando. Viveu amando sem medida e assim morreu. A doença foi prolongada e muito sofrida; por outro lado, aquilo que semeou em vida permitiu-lhe morrer rodeado da ternura incondicional da família e dos amigos. Corre o já quase "mito" que última mensagem que mandou dizia "morro, mas vou com os amigos".
Poucas vidas deixam um testemunho de entrega assim tão grande e tanta vontade, em quem fica, de amar mais e fazer melhor, e isso é um consolo e um orgulho muito grande, por mais falta que ele nos faça. E faz.